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Who Should Be Concerned? Zika as an Epidemic About Mosquitoes and Women (and some reflections on COVID-19)

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Quem deve se preocupar? Zika como uma Epidemia de Mosquitos e Mulheres (e algumas reflexões sobre o COVID-19)

A nova epidemia de coronavírus está em todas as manchetes; o número de pessoas infectadas e de fatalidades aumentando em todo o mundo. Quando os primeiros casos apareceram nos Estados Unidos, notícias da mídia e até algumas autoridades governamentais descreveram a doença, inicialmente, como algo que deveria preocupar apenas aqueles que fossem idosos e os imunocomprometidos. Em 24 de março, com 2.200 casos confirmados (e projeções do Ministério da Saúde atingindo 15.000)[i] e 46 mortes relacionadas à COVID-19 no Brasil, o Presidente Bolsonaro se dirigiu ao país, afirmando que “o grupo de risco é o das pessoas acima de 60 anos; então, por que fechar as escolas?”

Por que a analise da definição de uma doença e, em particular, a maneira pela qual ela é apresentada como uma preocupação apenas para algumas pessoas, é relevante?

Neste texto, o último da série Histórias de Zika, examinamos a errônea apresentação da epidemia de Zika no Brasil como uma doença transmitida apenas por mosquitos, preocupando apenas as mulheres. Porém, o coronavírus está na mente de todos — inclusive na nossa. Assim, enquanto diferentes países enfrentam essa nova epidemia, delineamos algumas conexões com o intuito de refletir sobre as lições que podemos aprender (ou deveríamos ter aprendido) com Zika.

“Em um lugar como o Brasil”

Em novembro de 2017, dois anos após a epidemia de Zika atingir o país, o Ministério da Saúde organizou um evento em São Paulo para discutir sobre o estado da pesquisa e identificar as inovações ligadas às doenças transmitidas por mosquitos. Esse evento reuniu renomados cientistas brasileiros e internacionais que investigam o vírus, sua transmissão e seus efeitos. Um desses especialistas foi a virologista Van-Mai Cao-Lormeau do Instituto Louis Malardé (ILM), eminente pesquisadora do patógeno na Polinésia Francesa, onde houve um surto de Zika entre 2012 e 2013. Durante essa sessão, Cao-Lormeau afirmou que compreender a transmissão sexual do vírus era de extrema importância científica. No entanto, argumentou que, em lugares como a Polinésia Francesa e o Brasil, seria impossível delinear e medir a porcentagem de casos provenientes ​​de transmissões vetoriais e não vetoriais devido ao alto número do vetor Aedes aegypti. Portanto, não seria possível identificar a importância dessas diferentes rotas de transmissão que, ao espalhar o vírus, causam a epidemia. Após essas observações, ela concluiu que as políticas públicas de prevenção nesses locais com “muitos mosquitos” deveriam se concentrar na transmissão vetorial. Nenhum dos participantes do evento, majoritariamente pesquisadores e formuladores de políticas públicas, expressou um ponto de vista diferente.

De fato, o comentário da pesquisadora da Polinésia Francesa ecoou as políticas públicas de controle do vírus implementadas durante a epidemia no Brasil. Embora a transmissão por fluidos corporais tenha sido reconhecida cientificamente, principalmente através da relação sexual (Kim et al. 2018), estratégias para limitar a propagação do vírus estavam centradas na figura do mosquito (Ventura 2016; Diniz 2016). Em entrevistas, nossos interlocutores, cientistas brasileiros e funcionários do Ministério da Saúde, concordaram, por unanimidade, que “em um lugar como o Brasil”, com alta prevalência, dispersão e densidade do vetor A. aegypti, Zika deve ser entendida e tratada como uma arbovirose, como uma doença ocasionada por um vírus disseminado pela picada de mosquitos infectados.

As campanhas de saúde pública tratam o A. aegypti como um mosquito vetor de patógenos nocivos há mais de cem anos (Lopes e Reis-Castro 2019). Quando Zika começou a circular no país, já havia uma extensa infraestrutura para lidar com os vírus transmitidos por esse mosquito. Tendo em vista principalmente dengue e chikungunya, essa infraestrutura girava, quase exclusivamente, em estratégias de controle da população do inseto (Segata 2017; Löwy 2017). Programas de educação nas escolas e anúncios na mídia ensinavam que, para “combater” essas doenças, todos os brasileiros deveriam eliminar acúmulos de água parada, os criadouros dos mosquitos. Ademais, além de agentes comunitários, o Ministério da Saúde contava com uma equipe técnica de profissionais treinados para controlar as zoonoses — doenças infecciosas causadas por patógenos transportados por animais —, sobretudo aquelas transmitidas pelo Aedes. Esses agentes visitavam casas para inspecionar (potenciais) focos e esclareciam os moradores a respeito dos perigos dos mosquitos, da transmissão, dos sintomas e das consequências dos arbovírus (Zara et al. 2016). Essa nova doença viral foi incluída nessa infraestrutura, que passou a enfrentar a “ameaça tripla” — Zika, dengue e chikungunya — das picadas de mosquitos.

A princípio, Zika foi considerada apenas mais uma doença ocasionada por um vírus transmitido pela picada de um mosquito. Em seguida, imagens de crianças no Nordeste com cabeças pequenas desencadearam novas pesquisas relacionadas a sua capacidade de “atravessar a barreira placentária”, redefinindo a epidemia como um problema de ordem nacional e, posteriormente, internacional. A ocorrência e os efeitos do que é conhecido, hoje, como Síndrome Congênita de Zika (SCZ), uma série de problemas de saúde em fetos e recém-nascidos — incluindo a microcefalia, o sintoma mais visível —, introduziram novos e desconhecidos desafios para cientistas e funcionários da saúde pública.

Estudiosos indicaram que a incerteza foi uma característica definidora da epidemia brasileira de Zika (Kelly et al. 2020), ao passo que nós identificamos duas certezas que rapidamente surgiram na narrativa de saúde pública: (1) a certeza de que o foco deveria ser a transmissão não humana (picadas de mosquito), definido como parte de uma questão histórica de saúde pública; (2) a certeza de que a solução mais eficaz para mitigar os efeitos da Zika seria uma abordagem generificada das responsabilidades individuais. Em outras palavras, as mulheres deveriam ser responsáveis ​​por proteger a si mesmas e a seus (futuros) filhos da picada de um mosquito potencialmente infectado.

Zika como “Problema de  Mulher”

 “Eu percebo que os homens se protegem. As mulheres normalmente ficam de perna de fora e, quando usam calça, usam sandália. (…) Nossa recomendação essencial, sobretudo mulheres nos três primeiros meses de gestação, é evitar de todas as maneiras, o contato com mosquito, de calça comprida, roupa, sapatos”.  (Marcelo Castro, Ministro da Saúde na época, 2015)

“Vamos torcer para que mulheres, antes de entrar no período fértil, peguem a Zika, para ficarem imunizadas pelo próprio mosquito”. (Marcelo Castro, Ministro da Saúde na época, 2016)

“Sexo é para amador, gravidez é para profissional. A pessoa que vai engravidar precisa verdadeiramente tomar os devidos cuidados preparatórios antes e durante a gravidez”. (Marcelo Castro, Ministro da Saúde na época, 2016)

Recentemente, uma de nós (Luísa) conversou sobre Zika com uma amiga que está grávida no Brasil. Ela, todo dia, passava repelente meticulosamente, cobrindo todo o corpo — apenas por precaução. Seu parceiro, no entanto, não estava usando nada para evitar as picadas de mosquitos; e eles não estavam fazendo uso de camisinha. Ela ficou chocada ao saber que, caso seu parceiro fosse picado por um mosquito infectado, poderia transmitir-lhe o Zika sexualmente e que o risco continuaria por meses depois que ele contraísse o vírus. Esta conversa e as frases proferidas pelo Ministro da Saúde mostram de que maneira a epidemia de Zika foi construída como um problema de mulher.

A maioria das pessoas, infectadas pelo vírus Zika, apresentou sintomas leves — alta temperatura, dor de cabeça, erupções cutâneas ou olhos vermelhos — ou era assintomática. Isso resultou na visibilidade do vírus apenas quando problemas de saúde foram identificados em fetos e recém-nascidos. Zika se tornou uma preocupação para gestantes ou pessoas capazes de gestar. O antropólogo Alex Nading (2014), em seu trabalho sobre dengue na Nicarágua, indicou que a definição do domicílio, como local-padrão para políticas epidemiológicas (Carter 2012), transforma as campanhas de saúde pública de controle de vetores em um empreendimento doméstico e generificado. Em outras palavras, a eliminação de mosquitos e seus locais de procriação se tornou responsabilidade das mulheres (ver também Wenham et al. 2020). Mas, no que diz respeito à Zika, esse ônus é intensificado pois as mulheres são vistas também como responsáveis ​​pelo controle da infecção — por não se deixarem ser picadas por esses mosquitos.

Algo ainda mais significativo: ao localizar a reprodução (cis-heterossexual) apenas dentro do corpo das mulheres, a sexualidade e a capacidade reprodutiva dos homens estiveram alheias às respostas epidêmicas à Zika. Ainda que o vírus possa ser transmitido sexualmente — e existem evidências de que ele pode permanecer até seis meses no esperma (Barzon 2016) —, o corpo do homem foi desconsiderado pelas políticas e práticas de saúde. Durante os dezoito meses da declaração nacional de emergência no Brasil, o Ministério da Saúde emitiu mais de 50 decretos e notas técnicas e mais de 100 boletins epidemiológicos. Desses documentos, apenas três diziam respeito às formas não vetoriais de transmissão: uma nota técnica sobre a alteração das diretrizes de doação de sangue e duas notas técnicas sobre doação e importação de sêmen — estes últimos os únicos focados na transmissão sexual[ii]. Esse silêncio sobre a transmissão sexual não apenas reforçou as suposições generificadas de responsabilidade materna, mas, como demonstra o caso da amiga de Luísa, também resultou em uma resposta de saúde pública falha e negligente, que manteve algumas mulheres em risco de infecção.

Mulheres foram vistas não somente como responsáveis ​​por proteger seus corpos das picadas de mosquitos e, igualmente, como responsáveis ​​por proteger seus corpos da gravidez. Em um país que encarcera mulheres por causa do aborto, elas foram instruídas a evitar ou adiar a gravidez. O texto de Anahí Guedes de Mello e de Gabriella Rondon, nesta série, enfatizou que a justiça reprodutiva, em particular a necessidade de legalizar o aborto, sempre foi um assunto premente no Brasil. A epidemia de Zika apenas tornou a questão mais evidente dada a hipocrisia em dizer às mulheres que não engravidassem, apesar de não lhes permitir real autonomia para tal.

A Classe e a Cor da Zika

Zika foi uma epidemia generificada, tendo em vista a responsabilização das mulheres, o silêncio sobre a transmissão sexual e a negligência com a justiça reprodutiva. Todavia, as desigualdades de classe e raça também definiram essa epidemia. Deste modo, embora o aborto seja um crime no Brasil, mulheres de renda média e alta, majoritariamente brancas, podem pagar pelo procedimento ilegal, porém seguro, para terminar gravidez, enquanto mulheres de baixa renda, majoritariamente negras e pardas[iii], precisam pôr em risco sua saúde e sua liberdade.

Além do mais, também foram mulheres pobres, negras e pardas, que mais duramente sentiram os efeitos da Zika. Várias das mães cujos bebês nasceram com SCZ se organizaram e criaram associações locais não apenas para trocarem experiências sobre o cuidado de crianças com deficiência, mas também — e principalmente — para fazer valer os direitos sociais e de saúde para seus filhos e filhas e para si mesmas como principais cuidadoras. Como visto nas postagens desta série feitas por Raquel Lustosa C. Alves e por Barbara Marques e Soraya Fleischer, mesmo quando existem leis que deveriam prover assistência e apoio a essas mães, cabe a elas o ônus de buscar seus direitos legais e de garantir a acessibilidade de seus filhos.

Tivemos várias oportunidades de ouvir essas mulheres declarando “Nada sobre nós, sem nós” e mencionando como as barreiras e dificuldades sociais, enfrentadas pelas pessoas com deficiência e suas famílias, são reforçadas e exacerbadas pelas desigualdades já existentes no Brasil. Ainda que as imagens de crianças com cabeças pequenas tenham recebido muita atenção no país e no mundo, uma vez que os aspectos sociais, econômicos e raciais da epidemia se tornaram aparentes, os mais afetados caíram na invisibilidade (Prado 2018). Eliza Williamson, em seu texto para esta série, revelou de que modo essas famílias / mães, cientes de que estão sendo esquecidas, estão encontrando novas maneiras de garantir que o mundo se lembre de que ainda estão vivendo sob os efeitos da Zika.

Baseando-nos no trabalho da historiadora da ciência, Evelynn M. Hammonds (1997, 2001), acerca da apresentação das epidemias como definidoras das políticas públicas e pesquisas em saúde, analisamos os efeitos da representação da Zika. Constatamos que essa epidemia, centrada em mosquitos e mulheres, se fundamenta em uma conceituação limitada da transmissão do vírus e da sexualidade e reprodução humana. A Zika no Brasil nos mostrou que as políticas de saúde podem produzir narrativas nas quais o vírus aparenta estar localizado em certos corpos. A partir desta compreensão, a contenção de uma epidemia tem como alvo indivíduos. No caso da Zika, mulheres, especialmente pobres, negras e pardas, além de serem as mais negligenciadas por uma conceituação limitada da doença por parte das políticas públicas, foram também responsabilizadas pelo enfrentamento da epidemia. Enquanto, confinadas em nossas casas, escrevemos a última postagem desta série, devemos colocar em questão essa definição e essa abordagem altamente políticas.

De uma Epidemia para Outra 

Os sintomas leves (quase desconsiderados) do vírus Zika e o silêncio quanto à transmissão não vetorial contrastaram com os efeitos altamente divulgados da SCZ e com o foco intensivo nas estratégias de controle vetorial. Com isso, a epidemia de Zika foi considerada um problema das mulheres. 

A COVID-19 foi inicialmente considerada um problema principalmente para pessoas idosas e imunocomprometidas, o que talvez tenha sido um dos motivos pelos quais muitos jovens desconsideraram a recomendação para ficar em casa, pois isso não dizia respeito a seus próprios corpos. Para algumas pessoas, ademais, recomendações governamentais de se abrigar e isolar se opõem a suposições sobre liberdade individual. A esse respeito, a estratégia de confinamento, adotada primeiramente na China, foi discutida de início como uma característica de um Estado totalitário.

Esses jovens que se recusaram a ficar em casa possivelmente se infectaram e, ainda que assintomáticos, espalharam o vírus entre aqueles que, porventura, vieram a apresentar sintomas graves ou até fatais. Não apenas isso, mas dados recentes mostraram que a COVID-19 pode ser uma doença grave para todas as faixas etárias. Por exemplo, um relatório do Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) de 16 de março mostrou que quase um terço das internações era de pessoas entre 20 e 44 anos. Em 28 de março, o Ministério da Saúde informou que metade dos casos graves no Brasil compunha um quadro de pessoas com menos de 60 anos.

Assim sendo, tem havido um consenso crescente, em todo o mundo, de que esse coronavírus não deve ser uma preocupação apenas para um grupo específico. Bolsonaro e seus apoiadores, porém, continuam insistindo em que “o Brasil não pode parar”, propondo o “isolamento vertical”. Essa abordagem, na qual apenas pessoas idosas e imunocomprometidas são isoladas, não é uma solução endossada por nenhuma associação de saúde ou estudo científico respeitável. Esta proposta falhará não somente em restringir as taxas de transmissão[iv], como também poderá piorar as condições para aqueles considerados parte do “grupo de risco”. Em um sistema de saúde sobrecarregado, existe uma possibilidade preocupante de que, na triagem para terapias e tratamentos, os idosos e os imunocomprometidos possam ser desfavorecidos e não recebam os cuidados adequados, conforme foi demonstrado pelas diretrizes da Itália para priorizar os jovens e pessoas com uma “melhor chance de sobrevivência”. O cálculo parece ser salvar uma força de trabalho saudável (a economia, o mercado de ações)[v], com o sacrifício de todos e de tudo.

Concordamos com os antropólogos Alexandre Branco Pereira e Everson Fernandes Pereira (2020) quanto à importância do distanciamento e isolamento social como forma de cuidado coletivo, para restringir a disseminação do vírus e mitigar os efeitos dessa pandemia. De maneira semelhante, nós nos mantemos cautelosas em definir o controle da transmissão sendo apenas uma responsabilidade individual, liberando, consequentemente, os governos dos investimentos estruturais necessários.

Da mesma maneira que recomendar que as mulheres “não sejam picadas por mosquitos” e “não engravidem”, recomendar que as pessoas “fiquem em casa” tão somente contornam os problemas reais em questão: a demanda urgente por investimentos para a infraestrutura de saúde, para testagem extensiva e para o financiamento de pesquisas que possam lançar luz sobre os vírus e os tratamentos. É bom lembrar que focar nas escolhas individuais, sem levar em conta que nem todos estão tomando decisões nas mesmas condições, agravará desigualdades sociais.

No caso da Zika, mulheres pobres talvez vivam em locais com maior proliferação de mosquitos, talvez tenham maior dificuldade em acessar repelentes. No caso da COVID-19, para trabalhadores precários e informais, permanecer em casa é correr o risco de perder o emprego e ficar sem remuneração. Como aqueles que nem sempre têm acesso à água corrente em casa ou aqueles que vivem na rua podem seguir a instrução de “lavar as mãos com frequência”? Como uma pessoa pode praticar o distanciamento social em cadeias, prisões e penitenciárias frequentemente superlotadas?

Também mostramos que, mesmo na definição da Zika como um “problema das mulheres”, as desigualdades de classe e raça foram exacerbadas na epidemia. De maneira semelhante, pessoas idosas e imunocomprometidas, consideradas potencialmente mais vulneráveis, não estão todas sob o mesmo risco: diferenças de renda, discrepâncias nas redes de apoio e desigualdades nas condições de moradia, por exemplo, mudarão bastante de que modo estas pessoas serão afetadas pela pandemia.

É possível pensar em novas formas de definir e abordar doenças e epidemias e, em particular, em quem deveria se preocupar com elas? No caso da Zika, por exemplo, poderíamos ter reimaginado políticas públicas de saúde que discutissem a transmissão sexual, promovessem o uso de preservativos e enfatizassem que não são apenas as mulheres, mas também seus parceiros, devem ter cuidado para não serem infectados. Poderíamos ir ainda mais longe, garantindo testagem extensiva para Zika, e também para dengue e chikungunya, sendo que aqueles que  estivessem infectados cuidariam para não serem picados por um A. aegypti, a fim de compartilhar a responsabilidade para controlar a disseminação dos vírus. Afinal, o mosquito se torna um vetor somente após picar uma pessoa infectada. Considerando a justiça reprodutiva, ainda podemos (e devemos) garantir o direito de interromper a gravidez (em qualquer circunstância). Deve-se, igualmente, não só garantir que pessoas com deficiência e suas famílias recebam apoio financeiro e cuidados médicos como também assegurar que as estruturas sociais sejam adequadas às suas necessidades.

À medida que o coronavírus se espalha, a pandemia amplifica e traz à luz, dolorosamente, para o Norte Global, o que a Zika já havia mostrado no Brasil: que as desigualdades sociais, econômicas e médicas abrem caminho para a disseminação do vírus e seus efeitos nocivos. No que diz respeito à Zika, essa disseminação foi intensificada pela impossibilidade de se proteger do mosquito e pelo silêncio sobre a transmissão sexual. Em relação à COVID-19, trata-se da impossibilidade de trabalhar em casa ou em empregos estáveis, a falta de acesso a água e sabão, a falta de renda para estocar alimentos por alguns dias, a falta de moradia adequada e a falta de casas para se abrigar e onde esperar. É, basicamente, a falta de uma estrutura do estado de bem-estar social, do senso de interdependência e de ação coletiva.

Durante a epidemia de Zika, perdemos nossa chance de reimaginar políticas públicas e de exigir mudanças estruturais. Podemos já estar quase sem tempo para agir durante a COVID-19. Não podemos esperar que outra crise de saúde aconteça para implementar políticas centradas no cuidado coletivo, com investimentos em infraestrutura, recursos e pesquisa, que garantam direitos sociais para os mais marginalizados em nossas sociedades, especialmente o acesso a um sistema de saúde universal e bem financiado.

Nossa análise examinou a maneira como a estratificação social classifica as pessoas “dentro” e “fora” das narrativas epidêmicas. E, como mostra o caso da Zika e da COVID-19, definir uma doença como uma preocupação individual e abordar essa doença como responsabilidade individual é uma política de saúde pública falha, ineficiente e negligente.


[i] Durante uma coletiva de imprensa, o secretário-executivo do Ministério da Saúde João Gabbardo dos Reis mencionou que estudos apontam que “de cada 100 pacientes com coronavírus, nós conseguimos identificar 14; 86% das pessoas que tem coronavírus não são identificadas, ficam sem diagnóstico. Isso ocorre no mundo inteiro, e deve ocorrer também no Brasil. De acordo com essa projeção, se haviam 2.200 casos notificados no país, haveriam por volta de15.714 casos no total. Agradeço ao Everson Fernandes Pereira por me mostrar essa informação.

[ii] Atualmente, estamos trabalhando em um artigo em que ampliamos o argumento apresentado aqui e examinamos como esse foco nas Tecnologias Reprodutivas Assistidas, um procedimento quase exclusivamente acessível a brasileiros de alta renda, demonstra, ainda mais, como a resposta à epidemia de Zika foi marcada por distinções de classe.  

[iii] Utilizamos a categoria racial “parda” cientes do uso histórico e político do termo na lógica racista brasileira e nas políticas de “branqueamento” da população (Munanga 1999; Campos 2013). Apesar de cautelosas, consideramos que abandoná-lo poderia contribuir involuntariamente para o apagamento do papel dos povos indígenas (presente e passado) na formação racial do país, que têm uma presença particularmente forte (mas não exclusiva) no Nordeste e no Norte do Brasil ( Oliveira 1997; Nunes 2019).

[iv] Uma pesquisa a ser publicada pelo Observatório Social COVID-19 da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) mostra que um quarto das pessoas com mais de 60 anos mora em uma casa com pelo menos três outras pessoas. Considerando os que convivem com os idosos, 23% tinham entre 18 e 59 anos e 7,8% tinham menos de 18 anos. Seria extremamente difícil isolar apenas os idosos, quando tantos domicílios têm diferentes faixas etárias. Além disso, 27% das pessoas com mais de 60 anos no Brasil ainda trabalham e seus ganhos desempenham um papel significativo na renda de suas famílias. Por exemplo, em lares onde uma pessoa idosa morava com pessoas com menos de 60 anos, em 46% dos casos, a renda do idoso representava pelo menos metade da renda familiar.   

Who Should Be Concerned? Zika as an Epidemic About Mosquitoes and Women (and some reflections on COVID-19)

The new coronavirus epidemic, in the headlines everywhere, is increasing in the number of infected people and fatalities across the globe. When the first cases appeared in the U.S., media reports and even some governmental officials initially framed the disease as one that should worry only those who are old and immunocompromised. On March 24, when Brazil had 2,200 confirmed cases (and Ministry of Health’s projections reaching 15,000)[i] and 46 deaths linked to the COVID-19, President Bolsonaro addressed the nation, stating that the disease’s “risk group is those who are above 60; so why should schools be closed?”

Why does it matter how a disease is framed and, in particular, how it is presented as being a concern for only some people?

In this post, the last one for the Histórias of Zika series, we examine how the Zika epidemic in Brazil was misconceived as a disease transmitted only by mosquitoes and a concern only for women. But the coronavirus is on everyone’s mind—including ours. Thus, as different countries face this new epidemic, we draw some connections to reflect on lessons we can learn (or should have learned) from Zika.

“In a Place Like Brazil”

In November 2017, two years after the Zika epidemic overtook the country, the Brazilian Ministry of Health organized an event in São Paulo to discuss the state of research and innovation about mosquito-borne diseases. The event brought together renowned Brazilian and international scientists investigating the virus, its transmission, and its effects. One of these experts was the virologist Van-Mai Cao-Lormeau, from the Institut Louis Malardé (ILM), a leading researcher of the pathogen in French Polynesia, where there was a Zika outbreak from 2012 to 2013. During her session, Cao-Lormeau stated that understanding sexual transmission of the virus was of utmost scientific importance. However, she argued that in places like French Polynesia and Brazil, it would be impossible to delineate and measure the percentage of cases caused by vectorial and non-vectorial transmissions, due to the high numbers of the vector Aedes aegypti. Therefore, there was no way to identify how significant these different routes of transmission were for spreading the virus and causing the epidemic. After these remarks, Cao-Lormeau concluded that public prevention policies in these locations with “too many mosquitoes” should focus on vectorial transmission. No one in the room, filled with researchers and policymakers, voiced a different point of view.

Indeed, the comment made by the researcher from French Polynesia echoed the public policies to control the virus implemented during the epidemic in Brazil. Although transmission by body fluids was scientifically recognized, especially through sex (Kim et al. 2018), strategies to limit the spread of the virus were centered on the figure of the mosquito (Ventura 2016; Diniz 2016). In our interviews with Brazilian scientists and members of the Ministry of Health, our interlocutors unanimously agreed that “in a place like Brazil,” with its high prevalence, dispersion, and density of the vector A. aegypti, Zika should be understood and addressed as an arboviral infection, as a disease transmitted by the bite of infected mosquitoes.

Public health campaigns have tackled the A. aegypti as a mosquito that has transmitted harmful pathogens for more than one hundred years (Lopes and Reis-Castro 2019). When the Zika virus started to circulate in the country, there was already an extensive infrastructure to address the viral diseases transmitted by the mosquito in place. Primarily targeting dengue and chikungunya, this infrastructure revolved almost exclusively around controlling the insect’s population (Segata 2017; Löwy 2017). Education programs at schools and media advertisements instructed that to “fight” these diseases Brazilians must eliminate stagnant pools of water, mosquitoes’ breeding sites. In addition, besides community health workers, the Ministry of Health has a technical staff of agents trained to control zoonoses—infectious diseases caused by pathogens carried by animals—, primarily addressing diseases transmitted by the Aedes. These agents visit houses to inspect for (potential) breeding spots and educate residents about the dangers of mosquitoes, the transmission, symptoms, and consequences of arboviruses (Zara et al. 2016). Zika was included in this infrastructure, which then had to address the “triple threat”—Zika, dengue, and chikungunya—of mosquitoes’ bites.

At first, Zika was considered just another disease transmitted by the mosquito. Then images of children with small heads in the Northeast of Brazil triggered new research into the virus’ capacity to “cross the placental barrier,” thus redefining the epidemic as an issue of national, and later, international concern. The occurrence and effects of what is known today as Congenital Zika Syndrome (CZS), a series of health issues in fetuses and newborns including the most visible symptom microcephaly, introduced new, unknown challenges to scientists and public health administrators.

While scholars have pointed out that uncertainty was a defining feature of the Brazilian Zika epidemic (Kelly et al. 2020), we identify how two certainties quickly emerged in the public health narrative: (1) a certainty that the focus should be on non-human transmission (mosquito’s bites), framed as part of a historical public health matter and (2) a certainty that a gendered approach to assigning responsibility was the most effective solution to mitigate Zika’s effects. In other words, women should be responsible for protecting themselves and their (future) children from the bite of a potentially infected mosquito.

Zika as a “Woman Problem”

“I notice that men protect themselves. Women usually expose their legs and, when they do wear pants, they wear sandals. (…) Our most important recommendation, especially for women in the first three months of pregnancy, is to avoid contact in any way with mosquitoes, wearing long pants, clothes, shoes.” (Marcelo Castro, Health Minister at the time, 2015)

Let’s hope that women, before they enter their fertile period, get Zika, to be immunized by the mosquito itself” (Marcelo Castro, Health Minister at the time, 2016)

“Sex is for amateurs, pregnancy is for professionals. The person who is going to get pregnant needs to take proper care before and during pregnancy”. (Marcelo Castro, Health Minister at the time, 2016)

Recently, one of us (Luísa) talked about Zika with a friend who is pregnant in Brazil. Her friend described how she meticulously used repellent daily, covering her entire body—just out of precaution. Her partner, however, was not using it anything to prevent mosquito bites; and they were not using condoms. She was shocked when told that if an infected mosquito bit her partner, he could sexually transmit Zika to her and that the risk continued for months after he contracted the virus. This conversation and the sentences spoken by the Brazilian Minister of Health during the epidemic showcase how the Zika epidemic was constructed as a woman’s problem.

Most people infected by the Zika virus had mild symptoms—high temperature, headache, rashes or red eyes—or were even asymptomatic. This meant that the virus was predominantly visible only once health issues were identified in fetuses and newborn babies. Zika became a concern for those who were, could, or might get pregnant. Anthropologist Alex Nading (2014), in his work about dengue in Nicaragua, analyzed how targeting the household as the standard site for  epidemiological policies (Carter 2012), turns public health campaigns of vector control into a domestic, gendered endeavor. In other words, eliminating mosquitoes and their breeding sites becomes the responsibility of women (see also Wenham et al. 2020). Only in Zika, this onus is intensified because women are seen as also responsible for controlling infection, for not letting themselves be bitten by these mosquitoes.

Even more drastically, by locating (heterosexual) reproduction solely within women’s bodies, men’s sexualities and reproductive capacities are placed outside the purview of Zika epidemic responses. Although the virus can be sexually transmitted—and there is evidence that it can remain up to six months on the sperm (Barzon et al. 2016)—, men’s bodies remained unscrutinized by health care policies and practices. For example, during the eighteen months that the national emergency declaration lasted in Brazil, the Ministry of Health issued more than 50 decrees and technical notes and more than 100 epidemiological bulletins. Only three were directly concerned with non-vectorial forms of transmission: one technical note about changing blood donation guidelines and two technical notes about semen donation and import, these last two being the only documents focusing on sexual transmission.[ii] This silence over sexual transmission not only reinforced gendered assumptions of maternal responsibility, but as Luísa’s friend’s case demonstrates, it was also a flawed and negligent public health response that kept some women at risk of infection.

Women were seen not only as being responsible for protecting their bodies from mosquito’s bites, but also as responsible for protecting their bodies from pregnancy. In a country that incarcerates women for abortion, they were told to avoid or postpone pregnancy. As the piece by Anahí Guedes de Mello and Gabriella Rondon in this series has shown, reproduction justice, in particular the need to legalize abortion, has always been an urgent matter in Brazil. The Zika epidemic just made the issue more evident through the hypocrisy of telling women to not get pregnant, while not truly allowing them the autonomy needed to do so.

The Class and Color of Zika

Zika was a gendered epidemic, as shown by the responsibilization of women, the silence over sexual transmission, and the neglect about reproductive justice. But inequalities of class and race also defined this epidemic. For example, although abortion is a criminal offense in Brazil, middle and high income, mostly white women, can pay for illegal but safe pregnancy termination, whereas low income, mostly black and brown[iii] women, must risk their health and freedom to do the procedure.

In addition, it was also poor, black and brown women, who most harshly felt the effects of Zika. Several of the mothers whose babies were born with CZS organized themselves and created local associations in order to exchange their experiences of caring for disabled children and mainly to demand social and health rights for their sons and daughters as well as for themselves as main caregivers. As seen in the posts in this series from Raquel Lustosa C. Alves and from Barbara Marques and Soraya Fleischer, even when there are laws which should provide these mothers with assistance and child support, the burden of pursuing their legal rights and guaranteeing accessibility for their children is left to them.

We had several opportunities to listen to these women as they declared “Nothing about us, without us” and as they described how the social barriers and difficulties faced by disabled people and their families are reinforced and exacerbated by the already existing inequalities in Brazil. While the images of children with small heads received a great deal of attention in the country and across the world, it seems that once the social, economic, and racial aspects became apparent, those most affected by the epidemic fell into invisibility (Prado 2018). Eliza Williamson, in her post for this series, wrote about how these families/mothers are aware that they are being forgotten and are finding new ways to make sure the world remembers that they are still living with the effects of  Zika.

Following the work of historian of science Evelynn M. Hammonds (1997, 2001) on how the framing of epidemics defines public health policies and health research, we have described how Zika’s representation as an epidemic centered on mosquitoes and women is based on a limited conceptualization of virus transmission and of human sexuality and reproduction. Zika in Brazil has shown us that health policies can produce narratives in which the virus seems to be located in certain bodies. Through this framework, containment of an epidemic targets individuals. In the case of Zika, women, especially poor, black and brown women, were made responsible for it while also being the most neglected by this limited framework to address the disease. As we write the last post of this series confined in our homes, we must put into question this highly political framework.

From One Epidemic to Another 

The mild (almost disregarded) symptoms of the Zika virus and the silence over non-vectorial transmission contrasted with the highly publicized effects of CZS and the intensive focus on vector control strategies. In this framework, the Zika epidemic was presented as a women’s problem. 

COVID-19 was at first framed as a concern mostly for old and immunocompromised people, which might be one of the reasons that many young people have not listened to the recommendation to stay home, for it did not concern their own bodies. In addition, it might also be because for some, governmental recommendations to isolate and shelter in place go against assumptions of individual liberty. In particular, considering that the lockdown strategy to contain this coronavirus, which was first adopted by China, was initially seen as a characteristic of a totalitarian State.

These young people who refused to stay home might have gotten infected and, while asymptomatic, potentially spread the virus to those who might then have serious or even fatal symptoms. Not only that, but recent data has shown that COVID-19 can be a serious disease to all age groups. For example, a March 16 CDC report showed that almost a third of hospitalizations were of people between 20-44 years old. On March 28, the Brazilian Ministry of Health stated that half of the serious cases in Brazil were of people under 60.

Thus, there has been a growing consensus across the world that this coronavirus should not be a concern only for a specific group. Nevertheless, Bolsonaro and his supporters continue to insist that “Brazil cannot stop,” proposing the approach of “vertical isolation,” in which only old and immunocompromised people are isolated—a solution that is not endorsed by any health associations or reputable scientific study. Not only will this proposal fail to curb transmission rates,[iv] it could potentially worsen the conditions for those considered to be part of the “risk group.” Within an overwhelmed health system, there is a concerning possibility that in triaging for therapies and for treatment, the elderly and the immunosuppressed might be disfavored and not get appropriate care, as shown by the guidelines from Italy to prioritize the young and those with the “best chance of survival.” The calculation seems to be about saving a healthy labor force (the economy, the stock market), in sacrifice of everyone and everything else.

We agree with anthropologists Alexandre Branco Pereira and Everson Fernandes Pereira (2020) about the importance of social distancing and isolation as a form of collective care, to curb the spread of the virus and mitigate the effects of this pandemic. Relatedly, we remain wary of framing the control of transmission as only an individual’s responsibility, which leaves governments off the hook for necessary structural investments.

As with recommending that women do not get bitten by mosquitoes and do not get pregnant, recommending that people stay home circumvents the real issues at hand: the pressing demand for investments on healthcare infrastructure, for extensive testing, and for funding research that can shed light on the virus and its treatments. In addition, focusing on individual choices without taking into account that not everyone is making decisions under the same conditions will aggravate social inequalities.

In the case of Zika, poor women might live in places where mosquitoes proliferate more and they might have more difficulty accessing insecticide repellent. In the case of COVID-19, for precarious and informal workers, staying at home might come at a risk of losing their jobs and not having any earnings. How can those without access to constant running water at home or those living in these streets follow the instruction “to wash your hands often”? How can a person practice social distancing in often overcrowded jails, prisons, and penitentiaries?

We also have shown how in the framing of Zika as a “women’s problem,” class and race inequalities were exacerbated in the epidemic. In a similar way, old and immunocompromised people, considered to be likely to be more affected, are not all under the same risk: differences in income, support networks, and housing conditions, for example, will greatly change how they are affected by the pandemic.

Is it possible to think of new ways of framing diseases and epidemics and, in particular, of who should be worried about them? In the case of Zika, for example, we could have reimagined public health policies that discussed sexual transmission, promoted the use of condoms, and emphasized that it is not only women but also their partners who should be careful to not be infected. Even further, we could have guaranteed extensive testing for Zika as well as for dengue and chikungunya, so that everyone who was infected would be given insect repellent and would take care not to be bitten by an A. aegypti, to share the responsibility over curbing the virus dissemination. After all, the mosquito needs to bite an infected person to become a vector. Considering reproductive justice, we can still (and should) guarantee the right to terminate a pregnancy (under any circumstance) as well as guarantee that disabled people and their families receive financial support and medical care and ensure social structures are adequate to their needs. 

As the coronavirus spreads, it amplifies and painfully brings into light to the Global North what Zika had already shown in Brazil: that social, economic, and medical inequalities pave a freeway to the spread of the virus and its harmful effects. Concerning Zika, this dissemination was escalated by the lack of possibilities to protect oneself from the mosquito and the silence about sexual transmission. Concerning COVID-19, it is the impossibility of working from home or having stable jobs, the lack of access to water and soap, the lack of income to stock up on food for a few days, the lack of proper housing, and the lack of homes to put oneself in shelter and wait it out. It is basically the lack of a welfare state structure, of the sense of interdependence and collective action.

We missed our chance during the Zika epidemic to reimagine public policies and demand structural changes. We might be almost out of time to act during COVID-19. We cannot wait for another health crisis to implement policies so that they are centered on the care for the collective, supported by infrastructure, resources, and research investment, and the guarantee of social rights for those most marginalized in our societies, especially access to a well-funded, universal health system.

Our analysis here has examined how social stratification sorts people “in” and “out” of epidemic narratives. And as the case of both Zika and COVID-19 shows, framing a disease as an individual concern and addressing such disease as individual responsibility is a flawed, inefficient, and negligent public health policy.


[i] During a press conference, João Gabbardo dos Reis, the Ministry of Health’s executive secretary, mentioned that studies show that “for every 100 patients with coronavirus, we can identify 14; 86% of the people that have coronavirus are not identified, they go undiagnosed. This happens in the entire world, and should also happen in Brazil.” According to this projection, if the country had 2,220 notified cases, there would be around 15,714 cases in total. We thank Everson Fernandes Pereira for pointing out this data to us. 

[ii] We are currently working on an article in which we extend the argument presented here and examine how this focus on Assisted Reproductive Technologies, a procedure almost exclusively accessible to high-income Brazilians, further showcases how the Zika epidemic response was marked by class distinctions.  

[iii] We use the racial category “brown,” translated into Portuguese as “parda,” aware of the term’s historical and political use under Brazil’s racist logic and policies of “whitening” the population (Munanga 1999; Campos 2013). Although wary of the term, we consider that abandoning it might unintentionally contribute to the erasure of the role of indigenous peoples (past and present) in the racial formation of the country, who have a particularly (but not exclusively) strong presence in the Northeast and North of Brazil (Oliveira 1997; Nunes 2019).

[iv] A soon to be published research from the COVID-19 Social Observatory from the Federal University of Minas Gerais (UFMG) shows that one-quarter of those over 60 live in a house with at least three other people. Considering those living with the elderly, 23% were aged between 18 and 59 and 7.8% were under 18. It would be extremely difficult to isolate only the elderly, when so many households have different age groups. In addition, 27% of those over 60 in Brazil still work and their earnings play a significant role in their household’s income. For example, in homes where an elderly person lived with people under 60, in 46% of the cases the elderly income accounted for at least half of the household income.   


Acknowledgements / Agradecimentos

We thank Emily Yates-Doerr for her insightful comments on this piece and for all her support throughout this series. We are also thankful to Michael M.J. Fischer, Stefan Helmreich, Harriet Ritvo, and Anahí Guedes de Mello for their feedback in earlier versions. Marilyn Levine and Thalia Rubio from MIT’s Writing and Communication Center helped with revisions and Marlene Machado Zica Vianna masterfully guided us through the Portuguese translation. We are also thankful for the incredible support from the Zika and Social Science Network. Luísa’s research on Zika and mosquito-borne diseases more broadly and her prolonged fieldwork in Brazil has been made possible with funding from the Social Science Research Council, from the National Science Foundation’s Cultural Anthropology Program, and from the Wenner-Gren Foundation. The authors also would also like to acknowledge the support from the European Union’s Research and Innovation 2020 Program ZIKAlliance Grant Agreement no. 734548 and support from the Vice-Presidency of Research and Biological Collections (VPPCB) of the Oswaldo Cruz Foundation, in partnership with the Newton Fund / British Council.

Agradecemos a Emily Yates-Doerr pelos comentários perspicazes em relação a este texto e por todo o seu apoio ao longo desta série. Também agradecemos a Michael M.J. Fischer, Stefan Helmreich, Harriet Ritvo e Anahí Guedes de Mello por seus comentários em versões anteriores. Marilyn Levine e Thalia Rubio, do Writing and Communication Center do MIT, ajudaram nas revisões e Marlene Machado Zica Vianna nos guiou, magistralmente, na tradução para o português. Também agradecemos ao apoio incrível proporcionado pela Rede Zika de Ciências Sociais. A pesquisa de Luísa sobre Zika, e de maneira mais,  sobre doenças transmitidas por mosquitos, e seu trabalho de campo prolongado no Brasil foram possíveis graças ao financiamento da Social Science Research Council, da National Science Foundation—Cultural Anthropology Program e da Wenner-Gren Foundation. As autoras gostariam de reconhecer o apoio do programa de pesquisa e inovação 2020 da União Europeia ZIKAlliance Grant Agreement no. 734548 e o apoio da Vice-Presidência de Pesquisa e Coleções Biológicas (VPPCB) da Fundação Oswaldo Cruz, em parceria com o Newton Fund/ British Council.


Works Cited / Referências

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Luísa Reis Castro is a PhD candidate in MIT’s program in History, Anthropology, and Science, Technology, and Society (HASTS) program, interested in new technologies for controlling mosquito-borne diseases as a window to discuss science and health policies. She is currently writing her dissertation, which focuses on different vector control projects in Brazil attempting to use the Aedes aegypti mosquito as a means of controlling the pathogens it is known to transmit. Combining theoretical and methodological tools from anthropology, STS, history, and environmental humanities, Luísa examines these projects to develop a framework for understanding how the deployment of different scales—territory, island, border, and climate—can define research and determine public and global health responses to disease transmission and health outcomes.

Luísa Reis Castro é doutoranda no programa de História, Antropologia, Ciência, Tecnologia e Sociedade (HASTS) do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e está interessada em novas tecnologias para o controle de doenças transmitidas por mosquitos como um meio para discutir ciência e políticas de saúde. Atualmente, ela está escrevendo sua tese examinando diferentes projetos de controle de vetores no Brasil, os quais tentam usar o mosquito Aedes aegypti como meio de controlar os patógenos que ele pode transmitir. Combinando ferramentas teóricas e metodológicas da antropologia, estudos das ciências e da tecnologia (STS), história e humanidades ambientais, Luísa examina esses projetos a fim de desenvolver uma abordagem para entender como a implantação de diferentes escalas—território, ilha, fronteira e clima—pode definir pesquisas e determinar políticas públicas e respostas globais à transmissão de doenças e resultados de saúde.

Carolina de Oliveira Nogueira is a researcher in Public Health at Oswaldo Cruz Foundation (Fiocruz). Anthropologist, member of Zika and Social Science Network. Her main areas of studies are biomedicine, gender, health policies, primary care settings and practices. She was co-coordinator of Newton Fund British Council/ FIOCRUZ “Acting in an uncertain world: mapping public health responses to the Zika epidemic in Brazil” research project. She is currently associate lecturer at AFMR Etcharry Formation et Développement  (France).

Carolina de Oliveira Nogueira é pesquisadora em Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Antropóloga, membro do Zika e da Rede de Ciências Sociais. Suas principais áreas de estudos são biomedicina, gênero, políticas de saúde, configurações e práticas de atenção primária. Foi co-coordenadora do Newton Fund British Council/ FIOCRUZ “Atuando em um mundo incerto: mapeando respostas de saúde pública à epidemia de Zika no Brasil” projeto de pesquisa. Atualmente, é professor associado na AFMR Etcharry Formation et Développement (França).


One Response to Who Should Be Concerned? Zika as an Epidemic About Mosquitoes and Women (and some reflections on COVID-19)

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